Dr. Carlos Eduardo Godoy Jr
Cirurgião ginecológico especialista em cirurgia robótica
Médico líder do Núcleo de Endometriose do Hospital São Luiz Campinas

Quais exames são mais eficazes para diagnosticar a endometriose?

Para diagnosticar a Endometriose primeiramente precisamos pensar nesse diagnóstico. Não podemos considerar a cólica menstrual intensa como um sintoma normal. A partir disso, identificamos a existência de sintomas compatíveis e fazemos um exame físico em busca de sinais da doença. A seguir é importante solicitar o exame correto. Muitas vezes um ultrassom convencional não identifica as lesões. Precisamos realizar ou a Ressonância Magnética de Pelve ou o Ultrassom para Pesquisa de Endometriose Profunda. Lembrando que esses exames devem ser feitos por profissionais experientes no diagnóstico da Endometriose.

A endometriose ainda é uma doença subdiagnosticada? Por quê?

Sim! A Endometriose continua sendo uma doença subdiagnosticada, apesar da grande melhora nos métodos diagnósticos que observamos nos últimos anos. Essa dificuldade em diagnosticar ocorre principalmente pelo hábito de considerarmos a dor como algo normal, sugerindo que as mulheres devam se medicar e suportar os sintomas por muito tempo, antes que procurem ajuda especializada. Em média uma paciente sofre por 7 a 10 anos até chegar ao diagnóstico correto e iniciar um tratamento eficaz. São anos de sofrimento que poderiam ser evitados caso os sintomas fossem valorizados numa fase mais precoce.

Há relação entre endometriose e infertilidade?

Muitas mulheres inférteis apresentam Endometriose como causa principal. A inflamação crônica causada pela doença afeta os órgãos reprodutores da mulher, dificultando a ocorrência da gravidez. A inflamação torna o ambiente pélvico inadequado para a gestação, por alterações químicas e formações de aderências. O útero, as trompas e os ovários podem sofrer prejuízos cada vez maiores ao longo dos anos. Por vezes os métodos de reprodução assistida podem ser necessários para devolver a esperança de alcançar a maternidade.

Quando a cirurgia é indicada para pacientes com endometriose?

A cirurgia é indicada em algumas situações. Pacientes com grandes cistos de ovário, endometriose de apêndice, endometriose com sintomas de obstrução intestinal ou endometriose de vias urinárias que comprometam a drenagem de urina, são indicações clássicas de cirurgia. Entretanto, pacientes com dor intensa que não melhore com medicação e pacientes com infertilidade, podem ser operadas em busca de melhora clínica.

Quais são os tipos de cirurgia mais utilizadas (laparoscopia, robótica etc.)?

Atualmente o tratamento cirúrgico da Endometriose é realizado por técnicas minimamente invasivas. Essas técnicas, que são a laparoscopia e a robótica, oferecem uma imagem ampliada e de alta definição. Essa qualidade é fundamental para que o médico identifique todos os focos de doença que precisam ser removidos no tratamento.

Robótica: vamos falar dela?

Claro! Para mim, a Cirurgia Robótica é o que há de mais avançado e preciso no tratamento da Endometriose. Mas é importante ressaltar que o robô não opera sozinho. Ele é um instrumento cirúrgico que depende diretamente da existência de um cirurgião treinado e qualificado que seja capaz de extrair do equipamento todos os recursos que ele oferece. Assim, operamos com uma imagem tridimensional e de alta qualidade, com pinças que realizam movimentos altamente complexos, usando uma energia de melhor qualidade. Além disso, o cirurgião comanda simultaneamente 3 braços robóticos. É como se utilizássemos um computador que multiplica nossas habilidades no momento de tratar cada paciente. Ressecamos a doença com muito mais precisão causando muito menos reação inflamatória.

A cirurgia cura a endometriose ou há risco de recidiva?

Infelizmente sempre há risco de recidiva. Por ser uma doença crônica, com base genética, há risco de voltar em algum momento. O importante é tratarmos precocemente, com a medicação correta e com uma cirurgia definitiva e eficaz. Qualquer falha nesse processo interfere no resultado, aumentando as chances da doença se manifestar novamente. Portanto, buscar ajuda especializada é fundamental para atingir melhores resultados.

Quais são os principais riscos ou complicações de uma cirurgia para endometriose profunda?

As cirurgias de Endometriose Profunda exigem intenso conhecimento de anatomia e técnica cirúrgica. Os focos de endometriose invadem os tecidos ao longo de anos, causando distorções anatômicas e aderências complexas. Assim precisamos programar nossa mente para enxergar a anatomia normal em meio a um cenário de doença. É fundamental ressecar os focos de Endometriose, preservando a funcionalidade dos órgãos acometidos. E para isso precisamos preservar vasos e nervos delicados. As complicações podem surgir pela lesão intraoperatória de alguma estrutura ou sangramento excessivo, podendo levar a risco de infecções, perda da funcionalidade e perda do potencial reprodutivo. Portanto, não se aprende a tratar Endometriose do dia para a noite. É preciso tempo, experiência, equipe multidisciplinar e se possível, acesso aos melhores recursos em tecnologia para que se alcance os melhores resultados.

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