Boa semana, povo antenado!
Há alguns dias atrás, duas amigas consultoras de moda e eu estávamos conversando sobre moda alta costura internacional quando surgiu o assunto sobre estilistas famosos na história da haute-couture. A pergunta era sobre estilistas americanos, a influência dos Estados Unidos na haute-couture. Eu comentei que havia um estilista no século passado que teve grande influência na moda internacional. Eu havia prometido a elas que iria escrever um artigo sobre ele. Então, meninas! Como o prometido. Como havia lhes dito esse estilista nascido na Inglaterra, mas que morou nos EUA por muito tempo e foi considerado o ” Einstein da Moda, seu nome é Charles James, o obscuro gênio norte-americano da haute-couture, que criou vestidos para belas da elite do bas fond.
Considerado maior segredo da moda, o anglo-americano Charles James completa com o espanhol Cristóbal Balenciaga e os franceses Christian Dior e Madeleine Vionnet, a quadra dos maiores criadores da haute-couture do século XX.
Até – pasmem! As rivais Coco Chanel e Elsa Schiaparelli encomendaram modelos a esse inglês, filho de mãe americana, que viveu em Nova York e vestiu as magras mais poderosas e interessantes de seu tempo.
As criações exuberantes de Charles James não só fascinavam o exclusivo e fiel grupo de clientes, mas também enfeitiçavam as lentes dos maiores fotógrafos de moda de seu tempo, como Louise Dahl-Wolfe, Lilian Bassman, Horst, Richard Avedon e Cecil Beaton, que captaram imagens notáveis das obras em tecido desse artista temperamental é difícil.
Para sociedade da época, o simples fato de uma mulher vestir roupas de Charles significava possuir um nível de gosto, refinamento e posição social que poucas podiam ter.
Nascido e educado em Londres, o jovem Charles James ( 1906-1978) foi expulso da escola por assediar sexualmente um colega. Como Chanel, iniciou-se como chapelereiro, aos 19 anos, mas usando um nome falso, pois a profissão não soava bem à sua família. Foi para Nova York sem um tostão, reinou, fez fortuna, perdeu tudo, vindo a falecer aos 72 anos, sozinho e decadente no Chelsea Hotel, onde morou as últimas duas décadas de sua vida, época em que outros hóspedes como Bob Dylan, Charles Bukowski, Jim Morrison e Janis Joplin passavam temporada no estabelecimento eleito dos malditos.
Charles James não buscava clientes, idealizava apenas para as mulheres que considerava perfeitas para exibir suas criações fossem elas da elite do poder ou do bas-fond, como a stripteaser Gipsy Rose Lee (inspiradora da atual rainha do cabaré, Dita Von Teese), para quem confeccionava modelos burlescos sensualmente despidos em cena. Na biografia, publicado pela Assouline, escrita por Richard Martin, o autor conta que uma de suas clientes, a condessa inglesa Anne of Rosse ao apresentá-lo à uma amiga riquíssima que há muito aguardava a oportunidade de se tornar sua cliente, James teria dito a ela : “Como vou criar um vestido para você? Nem andar você sabe!”.
Ser cliente de Charles James era sinônimo de mulher magra, paciente, com postura de rainha. Ele não admitia menos que isso, só atendia as mais requintadas de seu tempo, em seu timing.
A herdeira da Standard Oil, Millicent Rogers, colecionadora de arte Navajo, foi uma de suas patronas. Em um dos momentos pioneiros é mais extravagantes do que, hoje, denomina-se high & low, ela combinava as criações de James com sua coleção de joias tribais. Ele vestiu deusas como a sedutora condessa Mona Bismark, a elegante nova-iorquina Babe Paley e sucessora da dinastia do jornalismo americano, a Alva Austine Hearst, um lindo graveto que teve mais 45 vestidos do mestre em 1954, James pediu em casamento NancyLee Gregory, uma cliente milionária com quem teve um casal de filhos. A união foi mal falada por ele ser homossexual e criticada por haver indícios de golpe de baú.
Após sete anos, veio a aguardada separação, porém, Nancy nunca deixou de admirá-lo. Outra cliente que se tornou sócia do ateliê foi Elizabeth Arden. mas a associação com a fundadora da marca mundial de make-up foi breve: ” Só alguém com temperamento ruim ergue o império que ela construiu”, comentou James com sua peculiar ironia.
Durante os 50 anos da trajetória, Charles não confeccionou mais de mil vestidos, Cada um, uma complexa obra de engenharia com moldes com até trinta partes distintas, que depois de feitos distribuíam à perfeição até doze quilos de tecido, acabamento e glamour erudito. O fotógrafo de moda do The New York Times, Bill Cunningham, que o apelidou o ” Einstein da moda”, dizia das mulheres que vestiam as obras de arte do amigo: ” entravam normais no ateliê e saiam de lá Vênus de Milo.
Espero que tenham gostado. Até semana que vem, povo antenado.

