Projeto da ACESA Capuava, em Valinhos, atende gratuitamente crianças, jovens e adultos com deficiência e aposta em autonomia, segurança e adaptação às necessidades de cada participante

Aprender a nadar pode significar muito mais do que praticar um esporte. Para pessoas com deficiência, especialmente crianças e adolescentes autistas, o contato orientado e seguro com a água também pode representar uma importante ferramenta de autonomia, desenvolvimento e prevenção.

É com esse propósito que a ACESA Capuava, de Valinhos, colocou em prática mais uma edição do projeto Natação Inclusiva, que já está com as aulas em andamento. O programa oferece gratuitamente atividades para crianças, adolescentes e adultos com deficiência, respeitando as características, necessidades e o ritmo de cada participante.

O projeto prevê atendimento de 60 pessoas ao longo de 12 meses e utiliza a prática esportiva como instrumento de habilitação e reabilitação, contribuindo para a qualidade de vida, a autonomia, o desenvolvimento motor, a socialização e a participação dos atendidos.

Mas existe uma preocupação que vai além dos benefícios físicos e terapêuticos: a segurança dentro e fora da piscina.

Afogamentos reforçam alerta para famílias de pessoas autistas

Casos recentes mostram que o risco de afogamento envolvendo crianças autistas não está restrito a praias ou grandes áreas de lazer. Piscinas, lagos e represas também podem representar perigo, principalmente quando uma criança se afasta dos adultos sem que seja percebida.

Em 29 de agosto de 2026, um menino de três anos, diagnosticado com TEA, morreu afogado em uma represa de uma fazenda em Mineiros (GO). Ele brincava no quintal enquanto a mãe preparava um lanche e desapareceu. O pai encontrou a criança submersa durante as buscas.

Em 26 de julho de 2026, uma criança de cinco anos morreu afogada em um lago utilizado para criação de peixes, nos fundos de uma residência em Santana do Riacho (MG). As circunstâncias do caso foram encaminhadas para investigação.

Em dezembro de 2025, outros dois casos chamaram a atenção. Em Eunápolis (BA), um menino de 11 anos, com TEA nível 3 de suporte e não verbal, morreu afogado em um lago do Parque Gravatá depois de sair de casa sem que os familiares percebessem. Em Unaí (MG), uma criança, de quatro anos, morreu após se afogar na piscina de uma chácara da família durante o Natal.

São histórias diferentes, mas que deixam um alerta comum: quando uma criança autista desaparece, poucos minutos podem fazer toda a diferença, e a água precisa estar entre os primeiros lugares a serem procurados.

Para Michel Felipe Policarpo do Nascimento, coordenador do projeto Natação Inclusiva da ACESA Capuava, ensinar a criança a se relacionar com a água de maneira segura é uma camada importante de proteção, embora nunca substitua a supervisão dos adultos. “A natação não elimina o risco de afogamento e não substitui a supervisão. Mas quanto mais a pessoa conhece a água, entende seus limites e desenvolve autonomia para se movimentar nela, maior é a possibilidade de reagir diante de uma situação de risco. É uma habilidade que pode fazer diferença.”

A Natação Inclusiva integra as ações da ACESA Capuava voltadas à promoção da qualidade de vida e à inclusão de pessoas com deficiência. A instituição atua há mais de duas décadas em Valinhos e região, com atendimento multidisciplinar nas áreas de saúde, educação, assistência social, cultura e esporte. O projeto Natação Inclusiva III – 71000.072366/2024-12 – só foi possível realizar pois temos recurso da Lei Federal de Incentivo ao Esporte e patrocínios das empresas como KEMIN, Sicoob, EATON, Surtec, Chem Trend, Myrallis, que nos proporcionaram a realização.

Atividades adaptadas para cada participante

As aulas são organizadas em grupos dos atendidos pela entidade, considerando principalmente a idade, as características e a disponibilidade dos participantes. Crianças a partir dos sete anos, jovens e adultos são distribuídos de acordo com as possibilidades do projeto e também com a rotina das famílias.

A estrutura foi pensada para oferecer segurança e acompanhamento próximo. Cada turma conta com dois profissionais de Educação Física, um fisioterapeuta e dois monitores de apoio.

A proposta não é exigir que todos façam os mesmos movimentos ou alcancem os mesmos resultados. As atividades são desenvolvidas de forma lúdica, simples e adaptada, permitindo que cada participante evolua dentro de suas possibilidades.

“Temos pessoas com diferentes níveis de autonomia, diferentes formas de comunicação e diferentes respostas aos estímulos. Por isso, a atividade precisa ser acessível, segura e, principalmente, prazerosa. Queremos que cada participante se sinta protegido para experimentar e aprender”, explica Michel Nascimento.

Os materiais utilizados também seguem essa lógica. São equipamentos seguros, de fácil manuseio e, sempre que possível, familiares aos participantes, como pranchinhas e flutuadores tipo espaguete. O objetivo é tornar a experiência mais confortável e facilitar a adaptação ao ambiente aquático.

Mais autonomia para quem pratica, mais tranquilidade para quem cuida

Para as famílias, os resultados não ficam restritos ao momento da aula. A evolução de habilidades motoras, a maior familiaridade com a água e o desenvolvimento da autonomia podem representar também mais segurança e tranquilidade para pais e responsáveis. “Para uma família que convive diariamente com os cuidados de uma pessoa com deficiência, saber que ela está desenvolvendo habilidades na água traz uma sensação diferente. Não significa deixar de acompanhar ou supervisionar, mas saber que ela está mais preparada, mais confiante e conhecendo melhor os próprios limites”, afirma o coordenador.

Além do aspecto relacionado à segurança, a atividade aquática pode contribuir para força, resistência, equilíbrio, coordenação motora, consciência corporal, mobilidade e relaxamento muscular. Também pode favorecer a socialização, a autoestima, a concentração e a participação em atividades de lazer.

Para a ACESA Capuava, a proposta da Natação Inclusiva é justamente unir esses diferentes benefícios: oferecer esporte, estimular autonomia, contribuir para o desenvolvimento e, ao mesmo tempo, preparar a pessoa para uma relação mais segura com a água. “Quando falamos em inclusão, não podemos pensar apenas em colocar a pessoa dentro da piscina. Precisamos pensar no que ela pode conquistar a partir dessa experiência. Pode ser um movimento, uma interação, uma nova habilidade ou simplesmente perder o medo da água. Cada conquista tem valor”, conta Fernanda Teixeira, presidente da entidade.

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