Cresce presença masculina no pré-natal, mas baixa adesão a orientações revela lacuna na preparação e impulsiona busca por cursos

A participação dos pais na gestação tem crescido no estado de São Paulo, acompanhando uma mudança de comportamento que já é percebida dentro de consultórios, maternidades e no próprio dia a dia das famílias. Mais presentes em consultas e exames, os homens demonstram maior interesse em acompanhar de perto a gravidez, mas ainda enfrentam um desafio central: a falta de preparo.
Apesar do avanço no envolvimento, apenas cerca de 50% dos pais se consideram realmente participativos durante a gestação e nos cuidados com o bebê. Ainda mais significativo é o fato de que apenas 20% foram incentivados a buscar cursos, orientações ou qualquer tipo de preparação formal para a paternidade.
No estado de São Paulo, esse movimento ganha força com a ampliação de iniciativas como o pré-natal do parceiro, estratégia apoiada pelo Ministério da Saúde e adotada em unidades da rede pública, que incentiva a presença masculina nas consultas e no acompanhamento da gestação. A adesão tem crescido nos últimos anos, refletindo uma mudança cultural no papel do pai.
Mayra de Paula, fonoaudióloga, atua com famílias no período gestacional e é idealizadora de um programa multidisciplinar de preparação para o pré-parto, e aponta que esse avanço não tem sido acompanhado por oferta estruturada de preparo. “Existe uma mudança clara de postura. O pai quer participar, quer entender o que está acontecendo e como pode apoiar, mas muitas vezes não encontra orientação prática para isso. Por isso, desenvolvemos um curso que reunimos diferentes profissionais da saúde, como fisioterapeuta infantil, obstetra, pediatra, fonoaudióloga, para dar uma preparação completa para os futuros papais”, afirma a especialista.
Dados de saúde pública e organismos internacionais indicam que a participação ativa do pai durante a gestação está associada à redução do estresse materno, menor risco de depressão pós-parto e melhores indicadores de desenvolvimento infantil nos primeiros anos de vida. “Ainda assim, o acesso à informação segue concentrado na gestante, o que contribui para um cenário de insegurança entre os homens. Hoje o pai quer estar presente, quer participar ativamente e apoiar a parceira, mas ele não foi ensinado a fazer isso. Existe uma lacuna muito grande entre o desejo de participar e saber como agir na prática”, destaca Mayra.
Segundo ela, essa falta de orientação impacta diretamente não apenas a experiência do pai, mas também a saúde emocional da mãe e o desenvolvimento do bebê. Estudos em saúde materno-infantil indicam que o suporte ativo do parceiro está associado à redução do estresse na gestação, menor risco de depressão pós-parto e melhores vínculos nos primeiros meses de vida da criança.
Na prática clínica, o despreparo é recorrente. “Muitos homens chegam inseguros, sem saber como apoiar durante a gestação, o parto ou mesmo nos dias com o bebê. E, muitas vezes, isso não acontece por falta de interesse, mas por falta de acesso à informação direcionada para eles”, explica.
Esse cenário tem impulsionado a busca por modelos de preparação mais completos e integrados. De acordo com a especialista, cresce o interesse por abordagens multidisciplinares, que envolvem diferentes áreas da saúde para orientar não apenas a gestante, mas também o pai. “A preparação precisa ser mais abrangente. Não envolve só o parto, mas comunicação com o bebê, aspectos físicos da gestação, amamentação e o equilíbrio emocional da família. Quando o pai entende o processo, ele se torna mais seguro e participativo”, diz.
Para a especialista, o movimento reflete uma transformação mais ampla no papel da paternidade, que deixa de ser coadjuvante e passa a incorporar presença ativa desde o início da gestação. “A nova geração de pais quer fazer parte de verdade. O desafio agora é garantir que eles tenham acesso à informação e preparo para exercer esse papel com segurança e impacto positivo”, conclui.