Pessoal, segue mais um artigo do amigo e fotógrafo Claudinei Fortes.
Olá, povo antenado? Como foi o final de semana?
Bom , alguns leitores da coluna tiveram algumas dúvidas sobre termos usados no último artigo. Tentarei ser breve e para esclarecer suas dúvidas.
Bem os termos sãos: Trickle down, Trickle across Trickle up ou Bubble up. Na verdade, tais termos referem-se a Teoria do filósofo e sociólogo, George Simmel.
A teoria trickle down é amplamente utilizada na moda para demonstrar o poder de disseminação das tendências por um grupo formador de opinião, geralmente de classes sociais superiores (segundo Simmel, 2008), sendo atualmente as classes substituídas por um grupo de consumo chamado de “vanguardas”, ou seja, pessoas que estão à frente no lançamento de tendências de comportamento e estilo de vida.
Trickle-down(gotejamento) e Bubble-up(ebulição) são os dois movimentos contrários da moda,com base na escala social. Eles explicam de onde pode surgir uma moda.
Trickle-down é quando a moda nasce do topo, da elite e é copiado pela ‘massa’. Por exemplo uma celebridade lança uma moda, que é divulgada através da mídia, aparecem os primeiros seguidores até estabelecer um consumo em massa, surgindo cópias no mercado popular.
TEORIA DO TRICKLE DOWN E O DIABO VESTE PRADA
No filme “O Diabo Veste Prada”…
Miranda – Algo engraçado?
Andréa – Não, nada. É que para mim estes dois cintos são iguais. Eu ainda estou aprendendo sobre esta coisa.
Miranda – Esta “coisa”? Ah, entendi. Você acha que isso não tem nada a ver com você. Você abre o seu guarda-roupa e pega, sei lá, um suéter azul todo embolado porque você está tentando dizer ao mundo que você é séria demais para se preocupar com o que vestir. Mas o que você não sabe é que esse suéter não é somente azul. Não é turquesa. É “cerúleo”. E você também é cega para o fato de que em 2002, Oscar de La Renta fez uma coleção com vestidos somente nesse tom. E eu acho que foi Yves Saint Laurent, que criou jaquetas militares em cerúleo.
Miranda – E o cerúleo começou a aparecer nas coleções de muitos estilistas. E logo chegou às lojas de departamentos. E acabou como um item de liquidação nessas lojinhas de beira de esquina. E foi assim que chegou a você. E sem dúvida esse azul representa milhões de dólares em incontáveis empregos. E é meio engraçado como você acha que fez uma escolha que te exclui da indústria da moda, quando, na verdade, você está usando um suéter que foi selecionado para você pelas pessoas nesta sala entre uma pilha de “coisas”.
O diálogo acima travado entre a editora-chefe de uma importante revista de moda e sua subordinada assistente, recém-contratada e pouco conhecedora do universo da moda, no filme icônico “O Diabo veste Prada”, é um exemplo clássico e prático da teoria de moda conhecida como trickle down.
Filme “O Diabo Veste Prada” mostra na prática a teoria trickle down/ Reprodução. No caso do filme, claramente os formadores são os grandes estilistas e os profissionais dos meios de comunicação de moda, geralmente os grandes críticos e que ditam o que vai “pegar” ou não na moda das estações.
Na lógica trickle down os formadores de opinião, estilistas e maisons de Alta Costura ou celebridades, lançam as ideias que são seguidas pelos admiradores da moda, hoje chamados fashionistas e seguem o ciclo de apropriação de todas as classes e marcas até sofrer a cópia e finalmente o desgaste.
É justamente este desgaste a que Miranda se refere quando diz que após a cor ser lançada por Oscar de La Renta e Yves Saint Laurent e escolhida pelos editores de moda, chega aos magazines e depois acaba em tabuleiros de liquidação. O ciclo sempre se inicia novamente, dando origem ao que de fato caracteriza o “ciclo da moda”.
1.Trickle-down theory
Prevê a existência de uma elite de adoção da moda, constituída pelos criadores, divulgadores e primeiros usuários, localizados nas camadas privilegiadas da estrutura de classes sociais. Figuras populares ou celebridades atuariam como displays das novas tendências de moda, cuja divulgação é feita pelos meios de comunicação de massa. É o caso do relógio Swiss Army (usado por Bill Clinton, Robert Redford e Sônia Braga), que alcançou liderança de mercado na Europa e Estados Unidos.
2.Trickle-across theory
Afirma que a velocidade de adoção de uma nova tendência de moda varia entre grupos pertencentes ao mesmo extrato social. Neste caso, o líder de opinião de um grupo de pares torna-se importante, e o movimento de adoção pode até sugerir uma lógica geográfica. Consumidores tendem a ser mais influenciados pela opinião de líderes que são seus similares.
Exemplo: Surfistas, notadamente inspirados pelos habitantes do Havaí, local onde estão algumas das melhores ondas para a prática do esporte. Perceba que Morongo, proprietário da Mormaii, foi influenciado pelos colegas de surf a investir na fabricação de peças de neoprene, relógios e artigos de praia.
3.Trickle-up theory
Defende a hipótese de uma nova tendência de moda ser gerada através de hábitos de vestir dos grupos sociais pertencentes às classes mais baixas da hierarquia social. A chamada moda de rua, antes de ser adotada pelas pessoas da classe média, deverá ser legitimada pela classe alta que incorpora o novo estilo aos seus hábitos de vestir (SOLOMON, 1996).
Exemplo: Jeans, que deixou de ser apenas o uniforme de cowboys ou roupa de trabalho de operários para galgar os escalões e hoje incorporar-se ao estilo das mais cobiçadas marcas.
Paralelamente a este conceito temos a liderança subcultural em que grupos subculturais ou subculturas (adolescentes, negros, etc.) emergem como líderes de moda. Esta liderança esta relacionada à capacidade de inventar, criar novos estilos (punks, new wave). Mas só pode ser encarado como líder quando sua influência atinge o mercado de massa (SPROLES, 1985).
Pressões sociais para a conformidade podem influenciar dramaticamente a escolha de estilos. Esta pressão ocorre principalmente pela aprovação social do grupo no qual o indivíduo quer ser aceito.
Acontece que como toda história da humanidade, passamos por momentos semelhantes aos que alguma geração passada já viveu e fatores como a economia, estilo de vida, etc etc etc… também têm influência enorme na moda.
E assim, se você reparar, em cada período histórico algo externo influenciava numa mudança não só de comportamento mas também na moda (que é algo completamente inseparável em se tratando de comportamento humano). E essa influência tanto podia vir “de cima” (Ex.: Os ditadores de tendências dizerem que a cor azul é tendência porque existe um produto químico “tal” que não está tendo muita saída no país “Z” e é necessário escoar essa produção produzindo um corante com o “tal” produto químico que cria a cor azul), ou das ruas (Quando a gente acha lindo e copia detalhes e características das roupas que os punks usavam no fim da década de 70. E olha aí a moda voltando!).
Até a semana que vem, povo antenado!